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Amor, Sol e Lua – Sílvia Mendes

Falar de amor é difícil… E eu fico imaginando o porque… – Ainda se a gente pudesse copiar do livro de um autor bem romântico, distraído o bastante para não reconhecer o plágio… Eta diabo! É como ficar nu. Precisa coragem, muita coragem e entendimento. Coragem daquelas de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Então o coração se abre feito flor chegando no tempo sem poder mais ficar fechada.

É a primavera da emoção e isso me faz lembrar desenho do Walt Disney: foi o primeiro entendimento de amor que tive. Era um sem fim de bichinho de olhar caído suspirando entre coraçõezinhos e, por todo lado, flor e mais flor se abrindo. Não era dito, mas ficava subentendida a estação. E, de lá pra cá, se ouço falar da primavera logo me lembro do coração. E era fácil porque era desenho, porque era bicho e, principalmente porque não era comigo.

Agora, de todo modo e sem jeito algum, vou falar de mim (o mais que a coragem der), salvaguardada alguma intimidade, pois também ninguém é de ferro. Foi assim à tardezinha numa estação de trem com o céu imenso a dobrar em cores do azul ao cinza até se acabar num facho negro e inescrutável,  que eu a revi. Não era encontro marcado, tampouco éramos namorados. A verdade foi minha mudança da cidade para outra sem deixar endereço ou qualquer contato.

A coisa – eu nunca chamei namoro, medo de compromisso, ficar sério o negócio, impressões assustadoras – desandara e ficou o dito por não dito. E agora, à medida que ela crescia nos meus olhos com aquele sorriso lindo no rosto, mais aparecia o não dito e eu sentindo aquela horrível nudez com a multidão em volta apreciando todos os lados da minha malquerência. Parecia que quanto mais ela ria mais eu me encolhia numa culpa sem fim. 

Como se fosse o normal de sempre ela foi tomando do meu braço se enrolando toda num abraço quente e apertado quase me sufocando (sufocamento e tanta vergonha-quanta gente olhando). Seu corpo em forma de pera arrebatando meus sentimentos e eu com cara de rabanete desvencilhando e tartamudeando uma conversa para fugir de me explicar como convinha num encontro daqueles.

Mas, ela não dizia nada, ficava brincando com os meus dedos rindo contente. Como quando fomos ao circo onde a cada evolução dos trapezistas ela batia palmas arfando no generoso decote para logo em seguida enroscar de novo seus dedinhos nos meus. Foi me dando uma pena de ir embora e interromper aquele frio no ventre, aquela cócega secreta por todo o corpo indo descansar lá no fundo dos pensamentos.

O trem chegou e fiquei olhando para o outro lado como se não quisesse cumprimentar alguém. Fui ficando e deixando aquela febre doida me tomar. Respirava aos pulos com o peito indeciso, a boca tola dizendo besteira em cima de besteira. E nós dois rindo… E nós dois juntos… – E a estação se alargando e a noite se instalando. Reatamos. Aos beijos nos deixamos, tocamos e cheiramos fungando e segredando baixinho. Era um não largar nunca mais. Nossos cabelos misturados, testa com testa, tudo nosso do começo ao fim naquela plataforma enfiada no horizonte.

Do mesmo jeito que sol é sol e lua é lua, amor quando é não tem explicação. É e pronto. Assim foi crescendo dentro de mim até destampar nessa história incontável, guardada dentro de mim. Vivi outros amores, porém menores em importância e poesia, retratinhos de documento trocados a despedida, cartas e um ou outro postal; corriqueiro sem ser percebido muito bem. Se eu fosse contar a memória, com certeza, havia de me trair.

Diferente de Palmira, curioso, só agora me vem seu nome, bem depois da pele e todo o corpo recordarem. Mulher mansa e perigosa, não precisou de muito para trancar consigo o meu melhor, e eu nem sabia ter. Do seu beijo guardo a fileira de dentes miúdos e o gosto permanente de canela andando irreverente nos meus sonhos e sortilégios, já cansei de ouvir cartomante me falando dessa morena do meu passado. 

A ela, com todo o meu ser de saudade, um abraço. Apertado, enfiado, enrolado, alma com alma porque depois disso o resto foi resto. Ninguém vive duas vezes.


Sílvia Mendes – Biografia

Nascida em Tupã, reside em Louveira desde 2014. É autora de vários contos, entre eles Amor Sol e Lua, A mulher dos Olhos Invejosos, Divina Inspiração, O Beijo, Enquanto se Espera, entre outros, através da Editora Litteris – Rio de Janeiro e Casa do Novo Autor – São Paulo. Foi colaboradora na Vinhedonet, site da cidade de Vinhedo e Jornal da Terceira Idade também em Vinhedo. Escreveu o livro A TERRA, POR MIM estando em preparo a segunda edição, livro este que foi traduzido para o espanhol e distribuído no Chile, onde morou por quatro anos. Seu livro MEU NOME É JONAS E EU PRETENDO ME MATAR está em Açores-Portugal para análise. Também tem seu seu projeto ESCRITA EM TEMPO REAL publicando semanalmente um capítulo do livro MARIA, MARIA.

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