Bonjour, Louveira!
Ontem pela manhã, olhei a cotação do euro.
€ 1 = R$ 6.
Saí de casa.
Peguei o ônibus.
R$ 6 a passagem. € 1 .
Pronto.
Parecia a Europa.
Por esse preço, eu já esperava ouvir “bonjour” do motorista.
E esperava ele anunciar:
— Próxima parada: Paris.
Mas era Louveira mesmo.
Aí lembrei:
Temos a Rua Salvador Paris.
Então, quase deu.
Louveira: preço europeu, experiência brasileira.
Você paga:
€ 1.
Olha o ônibus:
Brasil.
Olha a rua:
Louveira.
Olha o holerite:
Em Reais.
Aí a ficha cai.
O preço é padrão europeu.
O salário não.
O transporte público também não.
O ônibus não leva ao metrô.
Nem tem conexão com o Eurostar.
Mas a tarifa...
Ah, a tarifa é nível internacional.
Só faltou entregar um croissant junto.
E não precisa de passaporte.
Nem de conexão com aeroporto.
Pois nem rodoviária temos.
Mas temos passagem de 1 euro.
É quase um pacote turístico.
Louveira Premium Experience.
Embarque de 1 euro.
Pra não sair de Louveira.
Se quiser sair, tem que pagar mais.
E o salário do servidor público?
Ficou na alfândega.
Não passou.
O fiscal olhou e perguntou:
— Tem alguma coisa para declarar?
— Tenho. O salário.
— Então pode deixar 16% aqui.
Aposentado também não escapa.
Aposentou do trabalho, mas não da cobrança.
— Pode deixar os seus 16% aqui também.
— Mas eu já paguei a vida toda!
— E vai continuar pagando!
É a nova modalidade de desconto "ad aeternum".
Quando acha que acabou, descobre que era só a primeira parcela da eternidade.
E a próxima parada, onde é mesmo?
Paris.
Ah, claro, a Rua Salvador Paris.
Sem passaporte.
Sem aeroporto.
Sem rodoviária.
E sem sair de Louveira.
Mas com o salário confiscado.