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Canto Para Dois Num Dia de Sol – Sílvia Mendes

Para ter aquele homem ela seria capaz de qualquer coisa. Até matar.

Podia sentir o cheiro e o gosto de sangue misturado às suas secreções de absurdo desejo.

Hoje lhe vira o pé viril descansando na sandália de couro e, aquela nudez fugaz pusera-lhe um fogo a arder-lhe por entre as pernas. Violento, imperioso.

Notara-lhe as unhas cortadas rentes e retas e pôs-se a imaginá-lo dobrado sobre si mesmo, enrolado parcialmente na toalha após o banho, concentrado de tesourinha nas mãos.

E as mãos haveriam de estar igualmente cuidadas e firmes, serenas na obra solitária por entre o vapor do chuveiro.

Que gozo sem par entreabrir-lhe as pernas para enxergar o sexo manso e quieto a repousar distraído.

Enlouquece ensimesmada a buscar-lhe nos mais disparatados sonhos para acordar úmida e suada em pleno orgasmo.

É. Teria que matar. Não dava para ser de outro modo.

Silencia-se por dentro e embaralha as cartas novamente, paus, espada, paus, ouro; dinheiro, dificuldades, obstáculos, seu trabalho, com certeza. Tudo vai mal desde que o reencontrou.

Seu sorriso de felicidade (será felicidade mesmo?) destempera-lhe os dias, seu corpo dói e a cabeça divaga confusa. Obviamente o trabalho está comprometido. Até aí nenhuma novidade.

Embaralha as cartas outra vez, ouros, espada, opa, a conversa com os deuses parece estar mudando de rumo. Ouros, o homem, ele, espada. Silencia-se mais uma vez buscando na névoa uma resposta para o gesto que planeja. Espadas, espadas, tudo negro, decisão difícil.

O pensamento lhe dança em tonturas. O estômago lhe envia espasmos excitados ante a ideia nascida do obsessivo desejo de possuir aquele homem.

Dorme um sono perturbado e cheio de sombras onde luta para acordar. Abre os olhos no quarto vazio e silencioso, senta-se à escrivaninha e começa a escrever. Com as unhas de sua mão livre raspa o verniz do móvel, sangra sem perceber rasgando a linda madeira envernizada.

Amanhece e ela se prepara. Liga a ducha com o pensamento vazio, mira no espelho o reflexo murcho: quer ser jovem outra vez, tivera lábios carnudos e cheios de promessa. 

Sorri triste e vincada, levanta a mão igualmente triste e vincada, cansada, marcada inteira no pavor de se ver assim iluminada pela claridade da janela. A vida arranca-lhe sem pena tudo o que julga poderoso nesse momento.

Escancara a janela para o céu de anil, os bicos dos seios se eriçam e ela bebe o contentamento de ter em seu corpo um sintoma de algo teso, firme, duro. Empina-os para o dia que vem, esquece a dor, recomeça. Ninguém pode adivinhar-lhe o estado de ânimo, prepara o sorriso inescrutável para o luto que já trás consigo.

Ainda assim, determinada, passo resoluto e eficaz, dirige-se à garagem seguida por seus velhos fantasmas, personagens fictícios de braço dado com o real, desfilam cada qual o seu querer, etéreos, nuanças de existência, prontos e acabados, fluidos suaves despregando-se dela para reatarem com o passado e irem embora.

Primeiro vai matar, depois, quem sabe se precisará morrer. Encontrou a paz. Já tem sangue nas mãos, já o atraiu a colar-se entre seus dedos viscosos no volante.

Chega a casa. O homem, seu homem, já saiu para o trabalho, as crianças estão na escola. Ela encontra-se sozinha: a intrusa.

O portão está encostado, o jardim úmido. Tira a sandália e caminha ao redor. Sua casa enfim. Seus pés afundam na grama macia, os jatos da irrigação umedecem-lhe as vestes. A porta da sala está encostada. Tudo a convida  à execução. Destino. Vira isso nas cartas; espadas, negro, escuro. 

Está diante da outra e essa lhe envia um sorriso pra lá de surpreso ao vê-la assim molhando seu tapete. Aproxima-se para o abraço, oportunidade para enterrar-lhe firme e horizontalmente a lâmina, logo abaixo da costela do lado esquerdo, oito centímetros em seu espantado coração.

Ficam abraçadas e um olhar enevoado se junta à boca aberta querendo dizer algo. O sangue esguicha e mancha o belo tapete enquanto a pobre escorrega mansamente pelas pernas daquela estranha mulher tentando ainda agarrar-lhe as roupas até deitar-se suavemente no chão.

Está feito. Acende um cigarro sentada no sofá mirando a fumaça meditativa. Não entende o que deu errado. Porque ele ficou com aquela cara desapontada? E as crianças também, com carinhas tão tristes. Não entendiam que agora poderiam ser felizes os quatro?

Levanta-se para reunir-se com as outras, dispõe as cartas e é aquele rebuliço. Todas querem ver sua sorte. 

Vai se distraindo enquanto espera que cheguem. As portas, todas trancadas, precisam ser abertas, ou, como farão para finalmente vir buscá-la?


Sílvia Mendes – Biografia

Nascida em Tupã, reside em Louveira desde 2014. É autora de vários contos, entre eles Amor Sol e Lua, A mulher dos Olhos Invejosos, Divina Inspiração, O Beijo, Enquanto se Espera, entre outros, através da Editora Litteris – Rio de Janeiro e Casa do Novo Autor – São Paulo. Foi colaboradora na Vinhedonet, site da cidade de Vinhedo e Jornal da Terceira Idade também em Vinhedo. Escreveu o livro A TERRA, POR MIM estando em preparo a segunda edição, livro este que foi traduzido para o espanhol e distribuído no Chile, onde morou por quatro anos. Seu livro MEU NOME É JONAS E EU PRETENDO ME MATAR está em Açores-Portugal para análise. Também tem seu seu projeto ESCRITA EM TEMPO REAL publicando semanalmente um capítulo do livro MARIA, MARIA.

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